AUTORA: DRA CLAUDIA FERREIRA »

Ouço frequentemente essa frase no consultório “do nada, doutora!”

As pessoas se referindo aos seus problemas de saúde como fatos inexplicáveis, como uma pessoa pode estar bem e de repente cair doente, ter um enfarto, um AVC, uma febre alta, precisar de uma internação hospitalar??

Que sentidos pode expressar essa forma de pensar ?

Primeiro, um olhar desfocado, ou negligente, para os sinais dados pelo próprio corpo ao longo do tempo. Não percebendo sinais, mesmo que discretos, sobre alterações de seu funcionamento que, num crescente, podem chegar ao aparecimento de doenças. Sinais como alteração do sono, disfunções digestivas, dor crônica mesmo que discreta, cefaléia de tensão, cansaço ou outros…

Quando levanto esse questionamento em consultório, muitas vezes, ouço outra pergunta: mas como posso saber se não sou médico(a)!? Daí mais algumas reflexões: por que só o médico está autorizado a falar sobre as desordens corporais? Numa atitude passiva, a pessoa entrega ao médico(a) todo o conhecimento sobre o funcionamento de seu corpo, despindo-se de sua auto-percepção e intuição. Ao médico compete o conhecimento técnico, decodificando a queixa do paciente e traduzindo em possível diagnóstico para depois buscar intervenções terapêuticas. Mas ele precisa das informações do cliente e quanto mais elaboradas, melhor. Aprendemos na Faculdade de Medicina que devemos descrever a Queixa Principal do cliente com suas próprias palavras, mesmo que pareça estranho, algo como “dor nos quartos” ou “acho que não estou bem”, ou “sinto o peito apertado”…

Porém, na rotina de consultório, muitas vezes pergunto aos meus clientes: como você se sente ? e ouço resposta como: “trouxe aqui os exames”, que muitas vezes é colocado sobre a mesa antes mesmo de falar sobre sua Queixa Principal. Ou pergunto como tem passado ultimamente? E ouço: “a senhora que vai dizer!”. Ou ainda: “me sinto muito bem” e no decorrer da consulta, dirigindo a Anamnese, vou encontrando uma série de sintomas que não foram descritos pelo cliente por não percebê-los. Isso pra não citar aqueles casais que vem juntos a consulta e eu pergunto ao cliente, usualmente um homem, algo como “seu intestino? evacua diariamente?” e a resposta vem da esposa!!!

Não se pode deixar de refletir, ainda, sobre o quanto os pacientes foram “ensinados” pela própria Medicina a pensar e agir dessa maneira. Uma vez que o próprio saber médico, baseado em referência anátomo-patológica, não tem como decodificar os sintomas de ordem funcional do organismo, os sinais decretos que citei no iniciado texto, que não parecem em exames de imagem ou em exames complementares. Sintomas discretos ou mal definidos podem ser um pedido de ajuda do corpo, um stress funcional dos tecidos, como nos casos de dor crônica. Precisamos estar atentos e dar recursos terapêuticos para que o corpo consiga retomar sua função e não dar químicas de bloqueio ao sintoma. Analgésico para dor, ansiolítico para distúrbio de ansiedade, indutor do sono se não consegue dormir e por vai… até que os sintomas se somam, o corpo perde sua capacidade de regulação e “do nada” surgem problemas como burn out, gripes que se transformam em pneumonia, infarto agudo, limitação/rigidez de coluna vertebral, etc. Ao desconhecer todo esse processo, não há atitude de prevenção nem de suporte ao organismo.

O desafio de nossa era é estarmos atentos ao momento presente, é ter atenção, sem tensão. É observar o que se passa dentro de nós e ao nosso redor para podermos manter uma postura ativa no sentido do auto-cuidado e da própria Saúde. Enquanto vivermos no tempo presente, com a Mente no passado ou no futuro, perdemos a oportunidade de ter atitudes que possam reparar o passado ou planejar o futuro. Como você quer estar daqui a 10 anos? E o que você está fazendo no tempo presente para alcançar essa meta?

Claudia Ferreira