Frente a riqueza histórica da Medicina Chinesa, acho pertinente oferecer aqui um breve relato dessa longa história, como forma de divulgação de conhecimento ao público em geral.
Pode-se dizer que A Medicina Chinesa evoluiu historicamente de maneira bastante heterogênea, com uma grande diversidade de saberes que se associam e se somam.
Em uma sociedade complexa como a China não se pode falar de uma única realidade sócio-cultural, pois vários sistemas de concepção de doença e terapêutica coexistiram, alguns se sobrepondo, outros sendo, aparentemente, antagônicos, sendo todos, no entanto, representativos da cultura chinesa. Assim não se pode falar de uma Medicina Chinesa única, mas sim, de acepções de diferentes momentos históricos convivendo num dado momento, algumas mais, outras menos presentes, mas todas representativas de uma determinada realidade sócio-cultural.
Por um período de 3.500 anos, sete sistemas de conceituação se desenvolveram na Medicina Chinesa: Terapia Oracular, Medicina dos Demônios, Cuidados Religiosos, Terapia com Medicamentos, Medicina Budista, Medicina das Correspondências Sistemáticas e, mais recentemente, o modelo ocidental, a Biomedicina. Traços de atividade terapêutica são reconhecidos a partir da dinastia Shāng商 (1766 a 1122 AC) e até o final da Dinastia Zhōu周(1122 a 255 AC), quando baseava-se em concepções mágicas de adoecimento e cura. Até então eram os sacerdotes quem exerciam os rituais de cura. Após um período de transição, é na Dinastia Hàn傼 (206 AC a 220 DC) que se conclui uma extensa sistematização na medicina, refletindo as idéias e a estruturação sócio-política que tentavam superar o caos deixado pelo longo período de Guerra entre os Estados (481-221 AC) que antecedeu o surgimento da unificação da China e a fundação de um império que durou até 1911.
Nesta sistematização da medicina, as concepções mágicas de adoecimento e cura perderam força. Passou-se a valorizar a intrincada correspondência e interferência mútua entre os fenômenos naturais e o homem, como veremos mais adiante. A ressonância entre micro e macro cosmos passou a ser fundamental. Micro cosmos referindo-se à pessoa, ao sensorial, aos pensamentos, aos sentimentos, ao funcionamento corporal individual e o macro cosmos ao universo entendido como as sutis variações de estações climáticas, movimentos dos astros e forças cósmicas revelados por uma rigorosa observação. As teorias, Yīn Yáng陰陰, Wǔ Xíng 五行, Cinco Fases, a concepção de Qì氣 e a teoria Zàng-Fǔ 贓腑, Órgãos e Vísceras, se organizaram e fundamentaram o novo pensamento. Todo o arcabouço teórico e prático formado na Dinastia Hàn é conhecido como Medicina Clássica Chinesa, Gǔ Dài Zhōng Yī古代中醫 esses preceitos básicos teóricos está presentes na teoria e na prática da Medicina Chinesa até hoje.
Seu declínio começou a ocorrer na Dinastia Qīng 情(1644 -1911 DC), quando um desejo de aproximação com a ciência ocidental se instalou no meio acadêmico chinês. Essa aproximação com o pensamento ocidental teve em interesses comerciais seu maior estímulo. Era a época da expansão do ópio e dos contatos da China com o resto do mundo. Em 1886, foi fundada a primeira escola de Medicina Ocidental na China e ao final da Dinastia Qīng só existia uma escola de Medicina Clássica Chinesa destinada tão somente à leitura de textos clássicos. Em 1927, a prática da Medicina Chinesa chega a ser proibida, só sendo reabilitada em 1949, quando Máo Zédōng 毛澤東 chega ao poder e cria a República Popular da China.

A Medicina Chinesa desenvolvida a partir daí passou a ser conhecida como Medicina Tradicional Chinesa, Zhōng Yì中醫 e consiste em uma sistematização e unificação da Medicina Clássica Chinesa com a ciência e valores ocidentais. Tornou-se hegemônica na China e no ocidente, no campo da Medicina Chinesa até os tempos atuais.
Vou citar aqui um pouco do arcabouço teórico básico da Medicina Chinesa, sem a pretensão de me aprofundar em temas tão amplos e profundos.
A correlação entre o micro-cosmos (a pessoa) e o macro cosmos (o universo) está presente em todas as teorias, vejamos.
- Teoria da Polaridade Universal Yīn Yáng: aspectos contraditórios e interdependentes presentes em todas as coisas formando uma Dualidade, um aspecto não existe sem o outro. Noite-dia, quente-frio, claro-escuro, homem-mulher, entendendo que há sempre uma “semente” de uma polaridade contida na outra, como o amanhecer do dia (Yáng) já sendo o caminho para a escurecer, a noite (Yīn), o que é representado na figura tão conhecida, o claro representa o Yáng e o escuro o Yīn. Um aspecto cíclico onde escuro ou claro, Yin ou Yang guardam a “semente” de um e de outro. E assim tudo se classifica, órgãos e vísceras, meridianos de energia onde se inserem as agulhas, emoções…
- Wǔ Xíng , “Cinco Fases”: Uma forma de pensar o Universo e os fenômenos da natureza de forma cíclica, fazendo uma série de correspondências. As Cinco Fases são: Madeira, Fogo, Terra, Metal, Água, em relações dinâmicas cíclicas de Geração e Controle de uma fase sobre a outra, de modo a manter um equilíbrio dinâmico. Para exemplificar usa-se o ciclo das plantas. Na fase Madeira a planta está em crescimento, na fase Fogo está em seu auge de expansão, na fase Terra estaria na fase madura, fruto, na fase Metal a planta é colhida, um recolhimento, na fase Água representa-se a planta na estabilidade, como a volta ao solo. Cada uma dessas fases se relaciona com diferentes fenômenos da natureza, cores, sabores, emoções, órgãos e vísceras e etc, tendo grande expressividade na Diagnose e na Terapêutica aplicadas nas diferentes técnicas terapêuticas da Medicina Chinesa. Mostra a interrelação entre todas as funções corporais e sua conexão com os fenômenos da natureza. Os seres vivos sendo mais uma expressão de toda a Natureza.

- Teoria Zàng-Fǔ 贓腑, Órgãos e Vísceras: Refere-se a interrelação entre Órgãos, Zàng, e Vísceras, Fǔ. Nessa teoria, Zàng-Fǔ ganha uma expressividade em diferentes fatores orgânicos, emoções e com fenômenos da Natureza. Por exemplo: Pulmão relaciona-se com Intestino Grosso, com a emoção Tristeza, com o clima Seco, com a estação climática Outono, com o sabor Picante e etc. O que direciona terapêuticas diversas em todas as técnicas terapêuticas da Medicina Chinesa. Assim, uma pessoa com Debilidade no Pulmão, ou melhor, no Qì do Pulmão, teria tendência a tristeza, seus sintomas respiratórios agravariam no outono, se beneficiaria do clima seco, do sabor picante…
- Qì氣. Difícil definir. Trata-se de algo presente em toda natureza em todos os seres vivos. O que outras Medicinas de ordem vitalista chamam de Energia Vital. Representa tudo que é vivo e que é capaz de assumir movimento e de transformar-se, influenciando todas as coisas. O que as agulhas de acupuntura capturam nos meridianos relacionados a órgãos e vísceras. Diz-se, por exemplo, que uma pessoa doente cronicamente, debilitada possui Qì deficiente, uma pessoa de mal humor, ranzinza possui Qì estagnado.