AUTORA: DRA CLAUDIA FERREIRA »
No século passado o entendimento acerca dos fatores de adoecimento resumiam-se aos agentes infecciosos, vírus, bactérias e fungos. Com o surgimento do antibiótico muitas doenças foram controladas e vidas foram salvas.
Porém, pensar em causas de adoecimento e problemas de saúde em geral no século XXI exige uma percepção mais ampla. Hoje os agentes de doenças podem esconder-se pelo corpo, muitas vezes de maneira crônica. Como não levam a sintomas imediatos, como faziam os agentes infecciosos, a própria Medicina duvida da sua existência. Talvez por isso haja tantas doenças chamadas pela Medicina de “Idiopáticas”, ou seja, sem causa definida. E aqui pode-se citar as Doenças crônicas de forma geral, as doenças auto-imunes… Desse modo, a estratégia terapêutica oficial se resume no controle de sintomas, na maioria das vezes com medicamentos, mas sem eliminar fatores causais, uma vez que não são conhecidos.
Mas voltando às causas de adoecimento no século XXI, me refiro aqui aos agentes tóxicos de nosso tempo. Existem diversos exemplos, como metais pesados, derivados de petróleo, substância de uso industrial, cosmética, químicas adicionadas aos alimentos, seja com função de conservante, seja de realce de sabor, poluentes ambientais que chegam aos pulmões, uso abusivo de medicamentos, poluição eletromagnética, invisível, mas não menos agressiva e etc.
Vou abordar a seguir apenas dois desses exemplos: os Agrotóxicos presentes em nossa comida e a Poluição Eletromagnética proveniente dos meios de comunicação digital que invade nossos lares e nossos corpos.
Agrotóxicos / Transgênicos (AGM):
Agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados (AGM) estão intimamente conectados, um abre caminho ao outro.
A Transgenia nos vegetais é a modificação genética para que as espécies sejam mais resistentes ao uso de agrotóxicos. No milho e no algodão, por exemplo, faz-se a introdução do DNA de determinadas bactérias (Bt-Bacillus Turingiensiss), que produzem toxinas, que ao chegar no trato digestivo de insetos conseguem matá-lo em pouco tempo (Biotecnologia Bt). Estudos já mostraram que ratos alimentados com ração contendo estas toxinas passam a ser sensíveis a diversas substâncias e passam a ter resposta imune aumentada a elas.
Na soja, a Transgenia ocorre pela introdução de um gen que a torna resistente ao herbicida Glifosato (Roundup), o mais usado na agricultura.
As crianças sofrem mais que adultos com a Transgenia e toxidade dos Agrotóxicos por seu corpinho menor e sua intensa atividade metabólica, como se os agentes nocivos fossem incorporados como agentes próprios da fisiologia corporal. Os agrotóxicos são disruptores endócrinos, isto é, alteram receptores endócrinos em células, levando a distúrbios endócrinos, como Diabetes, Ovários Micropolicísticos, Infertilidade e etc. A exposição direta aguda ou crônica em crianças pode levar a leucemia, danos neurológicos, síndromes de Transtorno de Atenção e Hiperatividade entre outros graves problemas de saúde.
O problema do uso de Agrotóxicos no Brasil vem sendo debatido na mídia e todos podem ter acesso. O Brasil é hoje campeão mundial do uso dessas substâncias. E, recentemente, foi aprovada no Senado Federal o Projeto de Lei PL 1459/2022, conhecido como PL dos Agrotóxicos ou PL do Veneno. Com ela, a situação fica ainda pior, não só com a ampliação de ativos agrotóxicos, mas com a aceitação de possíveis danos a saúde. Um trecho aterrorizante dessa lei diz:
Análise de risco
Com a nova lei, deixa de ser expressamente proibido o registro de produtos com substâncias consideradas cancerígenas ou que induzam deformações, mutações e distúrbios hormonais, entre outros. Agora, é considerado vedado o registro de pesticidas, de produtos de controle ambiental e afins que apresentem “risco inaceitável” para os seres humanos ou meio ambiente.
Outras situações que deixam de ser proibidas na legislação brasileira se referem aos produtos para os quais o Brasil não disponha de antídotos ou de modos que impeçam os resíduos de provocar riscos ao meio ambiente e à saúde pública.
A lei acaba ainda com a previsão de impugnação ou cancelamento de registro a partir de manifestação de entidades, como as de classe, as de defesa do consumidor, do meio ambiente e partidos políticos com representação no Congresso.”
Fonte: Agência Senado
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2023/12/28/sancionada-nova-lei-dos-agrotoxicos-com-vetos
Sabe-se que quem mais consome agrotóxicos são as monoculturas produtoras de commodities, milho, soja e cana-de açúcar que vai, principalmente, para exportação e para alimentação da pecuária. Por isso, a idéia de que é preciso produzir mais e com menos risco de perdas seria benéfico para matar a fome dos brasileiros em insegurança alimentar, não procede.
A esse respeito a ONG Greenpeace esclarece na análise sobre a aprovação da portaria:
“Safra atrás de safra, essas commodities têm batido recorde de produção e se fossem destinadas a atender a uma demanda em termos calóricos, já teríamos comida suficiente para alimentar todas as 850 milhões de pessoas que passam fome ao redor do planeta. No Brasil, mais da metade da população (58%) está em algum nível de insegurança alimentar, destes, cerca de 15% (33 milhões) enfrentam a insegurança alimentar em sua forma mais grave, a fome. Isto deixa claro que a necessidade de usar agrotóxicos para produzir mais alimentos e acabar com a fome é um mito, conforme já apontou relatório da ONU. Números da FAO também nos mostram que a existência da fome não é uma questão de quantidade, já que 30% de toda a comida produzida no mundo é desperdiçada anualmente, o que equivale a 1,3 bilhão de toneladas e um prejuízo econômico estimado em US$ 940 bilhões, ou cerca de R$ 3 trilhões.
A má distribuição e a falta de acesso aos alimentos, gerados principalmente pelas desigualdades sociais crescentes, é que são os fatores mais cruciais que nos levam ao cenário da fome, e não o volume de produção.”
Fonte: https://www.greenpeace.org/static/planet4-brasil-stateless/2022/06/39bd40e0-relatorio_pldosagrotoxicos_pl1459.pdf.pdf
E o que podemos fazer?
- Estimular o incentivo ao subsidio e ao consumo da agricultura familiar e da Agroecologia numa produção segura e sustentável a curto e longo prazo, não só para ampliar a oferta de alimentos, mas para preservar a saúde e a vida das futuras gerações.
- Consumir alimentos de origem orgânica certificada ou com produtores de comunidades orgânicas. Segundo a PARA (Programa de Análise de Resíduos em Alimentos) alguns alimentos são considerados “campeões de agrotóxicos”: Pimentão, Goiaba, Cenoura, Tomate, Alface, Uva, Beterraba, Laranja, Abacaxi, Manga, Chuchu, Batata Doce, Alho e Arroz. Além disso, a presença de resíduos de agrotóxicos varia conforme a forma como o alimento é feito, se processado, enlatado, congelado, fresco…
- Uma dúvida que sempre ouço é sobre que medidas podem ser feitas diretamente no consumo para reduzir os resíduos de agrotóxicos noa alimentos? Descascar, lavar, deixar de molho no Bicarbonato, cozinhar? Alguns pesquisadores têm se debruçado sobre o assunto e concluído que essas medidas podem ter algum impacto, mas dependem do tipo de agrotóxico que foi utilizado e de sua maior ou menor intensidade de penetração no alimento. No entanto, nada resolve o problema da transgenia nas sementes. O melhor continua sendo consumir alimentos orgânicos.
- Por fim, é preciso citar a pesquisa da Professora Dra. Larissa Bombardi, Geografia do uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia, de 2017, onde ela aborda detalhadamente a complexa teia de produção e consumo dos agrotóxicos, mostrando como empresas européias produtoras desses venenos se instalam em países, como Brasil, produzindo e vendendo agrotóxicos proibidos em seus países de origem. Depois de publicado o livro a Dra Larissa passou a sofrer serias intimidações que a levaram a deixar o Brasil com sua família. O PDF do livro está disponível aqui.
Fontes
Roberts JR, Karr CJ; Council On Environmental Health. Pesticide exposure in children. Pediatrics. 2012 Dec;130(6):e1765-88. doi: 10.1542/peds.2012-2758. Epub 2012 Nov 26. Erratum in: Pediatrics. 2013 May;131(5):1013-4. PMID: 23184105; PMCID: PMC5813803.
Rasmusssen RR, Poulsen ME, Hansen HC. Distribution of multiple pesticide residues in apple segments after home processing. Food Addit Contam. 2003 Nov;20(11):1044-63. doi: 10.1080/02652030310001615221. PMID: 14668155.
Katz JM, Winter CK. Comparison of pesticide exposure from consumption of domestic and imported fruits and vegetables. Food Chem Toxicol. 2009 Feb;47(2):335-8. doi: 10.1016/j.fct.2008.11.024. Epub 2008 Nov 27. PMID: 19059451.
Hamilton D, Ambrus A, Dieterle R, Felsot A, Harris C, Petersen B, Racke K, Wong SS, Gonzalez R, Tanaka K, Earl M, Roberts G, Bhula R; Advisory Committee on Crop Protection Chemistry, Division of Chemistry and the Environment; of the International Union of Pure and Applied Chemistry. Pesticide residues in food–acute dietary exposure. Pest Manag Sci. 2004 Apr;60(4):311-39. doi: 10.1002/ps.865. PMID: 15119595.
Dica de Leitura
Geografia do uso de agrotóxicos no brasil e conexões com a União Europeia
“Trata-se de um levantamento de dados exaustivo e sem precedentes sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil (todos com fontes oficiais) e faz um paralelo com o que acontece na União Européia. Conta com uma introdução sintetizando o trabalho de pós-doutoramento da professora e, a partir da página 67, são mais de 200 páginas com infográficos que esmiuçam, quantificam e facilitam a compreensão do TAMANHO DO PROBLEMA”.
Fonte: Ecotox Brasil
